Google publica o Open Knowledge Format (OKF): memória de agente vira arquivo markdown

O Google Cloud publicou o Open Knowledge Format (OKF), uma especificação aberta para representar o conhecimento interno de uma organização — esquema de uma tabela, runbook de incidente, caminho de join entre dois sistemas, aviso de depreciação de API — de um jeito que qualquer agente de IA consiga ler, sem SDK e sem tradução.
O problema: cada agente resolve o mesmo problema do zero
Segundo o time do Google Cloud, esse tipo de conhecimento hoje vive espalhado em catálogos de metadados com APIs próprias, wikis, comentários de código, ou só na cabeça de alguns engenheiros sêniores. Quando um agente precisa responder algo como "como calcular usuários ativos semanais a partir do nosso stream de eventos", ele tem que montar a resposta a partir dessas superfícies fragmentadas e incompatíveis entre si. Resultado: cada equipe que constrói um agente resolve o mesmo problema de montagem de contexto do zero, e cada fornecedor de catálogo reinventa seu próprio modelo de dados.
O que o OKF realmente é
Sem rodeio técnico: um bundle OKF é um diretório de arquivos markdown, cada um representando um "conceito" (uma tabela, métrica, dataset, playbook). O caminho do arquivo é a identidade do conceito, e cada documento tem um bloco pequeno de frontmatter YAML — type é o único campo obrigatório em toda a especificação — mais o corpo em markdown livre. Conceitos se linkam entre si com links markdown comuns, o que transforma o diretório inteiro em um grafo de relações.
sales/
├── tables/
│ ├── orders.md
│ └── customers.md
└── metrics/
└── weekly_active_users.md
Três princípios guiam o design: minimamente opinativo (só exige o campo type; o resto fica livre para quem produz o conteúdo), independência entre produtor e consumidor (um bundle escrito por humano pode ser lido por um agente, e vice-versa) e formato, não plataforma — o Google é explícito ao dizer que o OKF não exige conta, SDK ou nuvem específica para ser lido, escrito ou servido.
Por que isso ecoa algo que Andrej Karpathy já vinha dizendo
O próprio anúncio do Google credita a ideia de "wiki vivo para LLM" a um gist de Andrej Karpathy, citado diretamente no texto: "LLMs não ficam entediados, não esquecem de atualizar uma referência cruzada, e conseguem tocar 15 arquivos numa passada só" — exatamente o tipo de manutenção que humanos abandonam em wikis pessoais, mas que agentes fazem bem. Padrões parecidos já vinham surgindo sob nomes diferentes — vaults do Obsidian conectados a agentes de código, a família de convenções AGENTS.md/CLAUDE.md, repositórios cheios de index.md — mas nenhum desses formatos foi desenhado para cooperar entre si. O OKF tenta ser o denominador comum.
O que já está disponível
Junto com a especificação v0.1, o Google publicou implementações de referência: um agente de enriquecimento que varre um dataset do BigQuery e gera automaticamente um documento OKF por tabela, e um visualizador estático em HTML que transforma qualquer bundle OKF num grafo interativo, sem backend. Há também três bundles de exemplo prontos para navegar (GA4 e-commerce, Stack Overflow, datasets públicos de Bitcoin).
Uma discussão da comunidade em desenvolvimento — publicada na Medium por Udaykiran Estari — já propõe ir além do que o Google entregou como prova de conceito: um pipeline acionado por git hook que mantém o bundle OKF de uma base de código inteira atualizado a cada commit, em vez de depender de reprocessamento manual. É o tipo de lacuna que a própria equipe do Google reconhece deixar em aberto: o spec resolve o formato, não o problema de manter um grafo de milhares de arquivos preciso quando o time sobe dezenas de commits por dia.
O repositório, o spec completo e os bundles de exemplo estão públicos no GitHub.
Fontes

Fundador da DEVDINIZ